Luciana Bortoletto

 

 

Forma de poesia japonesa surgida no século XVI com Bashô especialmente, e ainda hoje em voga. Também conhecida como: haicai, hai-kai, ou haiku - é composta de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas, que geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano (kigôs). É também a forma poética de métrica e acentuação usada no Brasil, adaptada a partir da matriz japonesa. Millôr Fernandes recriou o haikai e adaptou-o ao dia-a-dia, (olha,/ entre um pingo e outro/ a chuva não molha) tornando-o uma das suas mais conhecidas formas de expressão. Sem esquecer, é claro, de Paulo Leminski, Teruko Oda, Alice Ruiz e tantos outros que dão enorme contribuição escrevendo, informando as pessoas, e com isso, promovendo sua prática e apreciação

desenhos de Luciana Bortoletto

 

 abril...
abriu-se e sorriu
para o outono

 

 

  janela semiaberta
a lua entra em casa
e meu olhar na rua

 

 

 

 

 

    o menininho
pelado corre pra rua
chuva de verão

 

tarde quente 
sob o banco da praça
pombos famintos

 

manhã sem vento
a praça inerte
abriga pombos


folhagem avermelhada

recolhida por mãos geladas
noite de outono

 

 

 

noite cinzenta
 pedacinho de céu à mostra
 e a lua se mostra

 

 

estica o braço..
tenta tocar a libélula
a menininha
     chuva constante sobre o formigueiro:
 sopa de formigas
 

na estrada
o sol se põe
...cidade à vista

 

 

 libélula
e o cata-vento, ambos ao vento...
 

 

 

à sombra do muro
uma mulher solitária
-------e sua história

 


 

sob a tempestade
passarinho treme
sozinho

 
 

 

 

galhinho seco
sob a areia fina
machuca o pé

Quarto fechado
brisa e luz transitam
pela fresta.
 

Lua de primavera
refletida em meus olhos
eu na Lua

-------

Lua de primavera
refletida em meus olhos
Lua em mim.

 

 

 

 

tronco oco
pra passarinho
é casa
  estrela cadente
que pousa na flor?
ah! um vaga-lume...

 

 
 

 

noite alta
através da cortina
lua rendada
 

filhote de gato
nos braços da menina largo sorriso

 
 

 

 

A árvore úmida
imita flores
caule colorido

 

sob o velho chapéu
a garoa molha a face
gota a gota

 

vida de casal:
ela prepara suspiros
e ele suspira

 
 

 

Os olhos do garoto
contemplam o pisca-pisca
abrem e fecham

depois de morta
a grande árvore
ainda faz sombra

 

menino correndo
levanta poeira
rua de terra

 
 

 

 

Pequeno Jardim
sob Lua de primavera
 apenas silêncio
anoitece
sob o luar, barcos de pesca
em alto mar
 

Mãozinhas em concha
pega punhado d'água
 girino dentro!

 

 

 

A poça d'água
Reflete mãos estendidas
Pedinte na chuva

  No chão da praça
vento arrasta folhas
barulhinho

 

Sobre o muro
o gato contempla
janelas abertas

 

 

 

 

janela gradeada
não impede
o vôo da mariposa

 

O velho chorão
balança ao vento
--------anoitece
 

 

 

 

Lagartixa no teto
pára e olha...
 mosquitinhos

 

noite gelada
um gato arredio
se lambe encolhido

 
 

 

 

Cão solitário
reclama baixinho
a falta do dono
 

silêncio 
um vaga-lume vaga
entre arbustos

 

tempo parado
o realejo toca
no final fechado

 

 

 

praça vazia
folha formiga grilo
praça cheia
  noite escura
barulhinho na janela
é a chuva